Virtudes

“É preciso pôr no mesmo nível a moderação na alegria e a moderação na dor. A alegria não triunfa sobre a firmeza que, sob tortura, sufoca os gemidos. Desejamos uma; admiramos outra: ambas nem por isso deixam de ser iguais, pois todas as dores que acompanham a segunda desaparecem atrás de um bem infinitamente superior. Pretender que elas não são iguais entre si é recusar-se a ver a própria virtude e só se apegar às aparências. Os verdadeiros bens têm o mesmo peso, o mesmo volume; os falsos são invólucros vazios: têm bela aparência quando os vemos, mas quando os pesamos, que decepção!

Sim, meu caro Lucílio, tudo o que se faz sob a égide da verdadeira Razão é sólido e eterno; a nossa alma então se fortalece e se alça nas alturas onde ficará para sempre. O que a massa chama de bens incha o coração com uma alegria ilusória. Ao contrário, o que vemos como infelicidade enche a alma de medo, lançando-a numa perturbação comparável à dos animais frente ao perigo aparente.

(…) Sobre a questão do bem e do mal, os sentidos não podem ser juízes, pois não sabem distinguir o que é útil do que não o é. Só podem proferir um julgamento sobre um objeto apreendido no instante; sendo-lhes impossível prever o futuro ou lembrar o passado. A noção de continuidade lhes é estranha. É, entretanto, segundo esses princípios que os acontecimentos se encadeiam e se ordenam, e que tece o fio de uma vida que deve seguir o reto caminho. Portanto, a Razão é o árbitro do bem e do mal. Não dá valor algum ao que nos é alheio e se encontra fora de nós. Para ela, o bem está todo contido em nossa alma.”

Sêneca

~ por anita peres em Maio 8, 2008.

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