
1985 [Tristeza não tem fim]
Aos seis, minha única preocupação era aprender a ler. No mais, a vida consistia em correr no pátio, descobrir nomes de flores, brigar e brincar. Adorava minhas tias solteiras. Cinqüenta por cento das conversas que eu travava sobre o mundo dos adultos se davam com elas. Porém, não entendi o que tia Yukiko fazia ali, na saída da escola, naquele fatídico dia de outono. Estava com uma expressão séria, lembro-me como se fosse hoje. Em pé, atrás do portão com grades, esperando, de óculos escuros. Pensando.
Fiquei feliz ao vê-la. Especialmente porque logo recebi um convite para almoçar em sua casa. Fomos andando juntas, de mãos dadas, no trajeto até o carro. Depois desta cena, recordo apenas que estava sentada no sofá de sua sala, mirando seus olhos preocupados. Com muita calma, ela explicava que meu irmão estava no hospital, que havia sido atropelado e que eu ficaria, por enquanto, na casa dela.
_ É grave?
_ É sim. É grave, Ana. Faz uma oração, tá?
Com seis anos, a compreensão das coisas se divide em duas categorias: grave e não-grave. Torcer o pé não é grave. Quebrar o braço é mais ou menos grave. Bater a cabeça não é grave, mas se você não acordar depois, pode ser muito grave. Isso eu entendi.
Acho que preferi não perguntar se ele poderia morrer. Apenas repassei o que acabara de ouvir algumas vezes, em pensamento. É grave, é grave…
No dia seguinte, minha outra tia, mãe das minhas primas, apareceu para me buscar. Fomos para a Cidade das Crianças. Até que foi divertido. Foi legal também passar um mês na casa das minhas primas. Todas as noites, meus pais passavam lá para jantar e trazer a lição de casa, que o Leonardo, meu amigo, passava pra mãe dele, e a mãe dele passava para a minha. Aprendi a ler assim. Quase sozinha.
Um dia, tia Yukiko me levou de volta pra casa. Rafael teve alta!, comemorou. No elevador, ela explicou direitinho: seu irmão está careca, mas não precisa rir. Ele também não se lembra muito das coisas, viu. Não se assuste. Ele fala baixinho, porque teve de respirar por um tubo, que ficou em sua garganta. Então, agora ele só pode comer danoninho, purê, essas coisas.
Abrimos a porta e vi a família toda, incluindo tios e avós. Ele estava dormindo na sala, sobre um futon, de frente para a TV. Todos me olharam. Devolvi os olhares para o Rafa, que continuava dormindo. O clima era de alegria. Em casa, finalmente, a família voltava a se reunir.
Fui para meu quarto. Minutos depois, ele acordou. Caminhei para o corredor. Avistei meu irmão apoiado sobre os pés do meu pai, andando como um boneco.
_Rafael, essa é a sua irmã, Ana Maria.
_Oi, Rafa.
Ele me olhou, sorriu e ficou em silêncio.
Dali pra frente, tenho a impressão de que virei a irmã mais velha, apesar dos quatro anos que nos separam. Passei a cuidar dele, dar comida na boca, traduzir seus sussurros – e dar voz aos seus desejos. Ele agradecia com frases do tipo “te amo”.
Durante uma sessão de fisioterapia, Rafael foi entrevistado pelo Fantástico. Ficou famoso no bairro e seguidas missas de agradecimento foram rezadas por ele. Recuperou a voz, os movimentos e a memória. A vida.
2009 [Felicidade sim]
O curso interrompido, é claro, se manifesta até hoje. Vez ou outra, meu pai dá ordens em voz alta, como se meu irmão não fosse capaz de tomar decisões. Minha mãe, por sua vez, releva sua insistência nas escolhas equivocadas. Não falo mais nada. Apenas torço para que ele se encontre pra valer.
Recentemente, minha terapeuta sugeriu que eu refletisse sobre este acontecimento. Segundo sua tese, pode ser que eu tenha criado medo do imprevisível. Temo o acaso definitivo; o acidente cortando a linha contínua. Antes que tudo escape, fujo.
Não fosse verdade, confiaria mais no destino, evitaria andar em círculos? Talvez.
Para ser honesta, não sei mais se acredito em destino. Vivo teorias conspiratórias o tempo todo, o que posso fazer?
Destino é para quem confia na sorte. Vida é para quem encara a morte.
Sei que detenho um pavor de não dar certo. Do quê, exatamente? Não importa. Temo não dar certo, simplesmente. Apesar da maturidade, receio não ser capaz de lidar como uma pessoa adulta. Sob controle. Volto à infância e digo que minha dor está insuportável.
Saio pela emergência, continuo sem entender: o que aconteceu?